(1779 - 1853), naturalista, realizou nos anos aqui dedicados, a percorrer o litoral e o interior, antes e depois da independência brasileira. Se não falta este aspecto, rico em estudos e informes relativos à flora, à fauna e à geologia do país, de especial interesse é a maneira pela qual o cientista francês levantou e transmitiu um quadro completo das diversas regiões que visitou.

Aquela conturbada época em que o Brasil efetuava a transição da sujeição colonial para uma nova condição de nação soberana, ressalta com plena vida de suas páginas.
 
 

Durante todo o tempo em que percorreu vasta porção de nossa província nada lhe escapou à acuidade de observador arguto e meticuloso do nosso meio físico, fauna e flora, a gente que aqui vivia, os costumes, a índole e caráter, as lendas e tradições, o regime, a política, a História e as instituições.

Ele se inclui entre os mais autorizados cronistas estrangeiros que fizeram do Brasil o seu tema. Perscrutou tudo o que se lhe deparava ante os olhos, desde o índio às mais requintadas manifestações da implantação da cultura européia em nosso País.

 

Chegou a conhecer tão bem determinados aspectos de nossa formação étnica, cultural, social e política, que não se furtou a fazer argutas comparações entre usos e costumes das regiões que visitou.

Saint-Hilaire tem sido entre os cientistas estrangeiros que nos visitaram no século passado o mais lido e apreciado no Brasil. Seus diários de viagens, traduzidos para o português, arrebanharam grande número de leitores e raros são os trabalhos de Sociologia, Etnografia, Geografia e História do Brasil em que seu nome não é citado, pelas inúmeras observações e comentários sobre topônimos, costumes, acidentes geográficos, língua, culturas indígenas e uma enorme soma de observações de cunho pessoal sobre nosso modo de vida, o caráter brasileiro, governantes e uma série de juízos sobre o solo, a agricultura, a pecuária, as queimadas, que já naquele tempo eram praticadas em larga escala no Brasil.

Do botânico, até agora, já vieram a lume: Segunda Viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo - Viagem ao Espírito Santo e Rio Doce - Viagem pelo Distrito dos Diamantes e Litoral do Brasil. Viagem pela Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais - Viagem às Nascentes do Rio São Francisco - Viagem à Província de Goiás - Viagem a Curitiba e Santa Catarina - Viagem a São Paulo.
 
  "Se alguns exemplares dessas minhas descrições resistirem ao tempo e ao esquecimento, dia virá que gerações futuras nelas colherão informações de grande interesse sobre essas vastas províncias, transformadas, talvez, em impérios. E ficarão surpreendidas em verificarem que nos locais onde cidades prósperas e populosas se erguem, havia outrora, apenas, uma ou duas cabanas, pouco diferentes das choças dos selvagens. E onde o ar vibra com o ruído dos martelos e das máquinas mais complicadas, ouviam-se, em outros tempos, o coaxar de sapos e o cântico dos pássaros. No lugar onde vicejam extensas plantações de milho, de mandioca, de cana-de-açúcar, de árvores frutíferas, só havia terras cobertas de uma vegetação exuberante, mas inútil. Diante de campos cortados por estradas de ferro, talvez mesmo por veículos mais possantes do que as nossas atuais locomotivas, sorrirão os vindouros ao lerem que houve um tempo em que o viajante se julgava feliz quando podia percorrer, em um dia, quatro ou cinco léguas".